O Ventos do Saber realizou as gravações de algumas contações de histórias com convidados bastante especiais, dentre eles Paula Yemanjá, que é atriz e contadora de histórias. Hoje, trazemos uma entrevista com Paula, que explica os caminhos que a levaram a se tornar uma contadora de histórias e como fazer para enveredar por esse caminho.

De onde surgiu seu interesse por ser contadora de histórias?

Eu me tornei contadora de história, eu acho que por influência da minha mãe, que contava muitas histórias a nossa família. Ela é de Minas, então quando a minha mãe, mineira, se casou com meu pai, que é cearense, pouco tempo depois ele decidiu retornar para o Ceará e trouxe minha mãe com ele. Quando a gente era criança, minha mãe brincava de contar histórias dos parentes. Era uma época que não era tão fácil acesso à internet, onde a gente mantém os vínculos de uma forma muito mais rápida, até telefonar era muito caro, não é para fazer todo dia e uma forma que minha mãe encontrou de aproximar a gente desse Estado que estava tão distante era contando as histórias da cidade dela, a gente brincava que eram ‘causos de Patos de Minas’. Então ela contava as histórias dos tios, das tias, contava também da família do meu pai, depois contava causo de terror e foi assim que tive meu primeiro contato com a contação de história. Eu acho que isso foi muito marcante para minha trajetória enquanto artista dessa linguagem.

Explica um pouco sobre como foi o processo até você realmente se tornar uma contadora de histórias…

Depois dessas histórias que ouvia da minha mãe, eu passei pelo processo de letramento e me tornei uma leitora voraz. Eu tive muita dificuldade de aprender a ler, então quando eu conseguir aprender mesmo, eu me joguei em tudo que era livro, comecei a ler muito. Adorava ler Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Monteiro Lobato. Meu pai era uma pessoa que comprava muitos livros lá para casa, tinha de tudo: biografias, jornal…, então um passo importante para minha formação de me tornar contadora de história foi lendo essas narrativas como Câmara Cascudo, contos populares… E aí quando eu já estava iniciando minha trajetória no teatro, durgiu a oportunidade de trabalhar em uma livraria, e eu jovem, querendo ter um pouco de independência para ter minhas coisas, me joguei nessa empreitada de trabalhar nessa livraria contando essas histórias. Contava muitas histórias que eu lia quando criança. Engraçado que hoje, mais de 21 anos depois, continuo contando histórias e aí hoje em dia eu conto também muitas das histórias que a minha mãe me contava, as histórias de Patos de Minas. Então esse processo para eu me tornar uma contadora de história e levou tempo, levou muito tempo mesmo. Eu fui descobrindo, eu vi que não conseguia me identificar profissionalmente como uma contadora de histórias, foi um processo em construção dessa vivência prática, de estar narrando histórias, experimentando, até que finalmente construí uma identidade artística e ai quando me perguntam eu falo que sou contadora de histórias.

Quais dicas você daria para quem quer enveredar por essa área?

Para quem quer se enveredar na contação de história, eu acho que é muito importante assim, nós somos contadores urbanos, narradores artísticos, não estamos inserido dentro de uma comunidade tradicional onde a narração de história entra por um processo de aprendizado natural como por exemplo acontece entre os indígenas ou como acontece dentro de comunidades rurais que vivem mais afastadas, como acontece dentro de alguns povos africanos onde a oralidade mantém uma força muito grande, onde a via do aprendizado ainda se dá pela oralidade. Então quando a gente não é desse espaço, eu acho que a gente tem essa coisa do mergulho na literatura, um mergulho dentro da própria história pessoal, se descobrir nisso, se descobrir nesse ofício e experimentar você. Se permitir descobrir essa narração. Eu acho que você aprendendo contexto a narrar no contexto urbano, aí você se reencontra com o elo de uma outra forma de possibilidade de transmissão de conhecimento que não perpassa pela via da leitura e necessariamente pela via da escrita. Nós somos contadores de história, devemos abrir nossos ouvidos, antes de tudo, para saberes ancestrais, entender essa lógica onde a palavra funda mundos. Uma palavra como um ato de criação mesmo. Então é muito importante ver contadores mais experientes, é muito importante você trocar experiências, mas também é muito importante você se arriscar, jogar, experimentar se a história te toca e te emociona, pensar ‘como é que eu vou contar essa história, que elementos eu vou usar, o que é que eu tenho do meu repertório de corpo, de voz, de experiência que eu vou colocar dentro dessa narrativa para que ela se torne minha’? Hoje em dia existem diversos cursos, então eu recomendo para quem tá iniciando nessa atividade que procure fazer cursos com narradores experientes, pessoas que atuam no campo da narração, que desenvolvem uma pesquisa dentro dessa prática.

Qual você acha que é importância da contração de histórias, principalmente para a educação?

E quanto à educação, muito se fala da contação de história como uma forma de incentivo à leitura. Eu já parto de uma outra forma, eu acho que a narração da história é um convite para você conhecer o universo mítico, universo fantástico, um universo de outras possibilidades de se olhar o mundo e esse convite feito pelo narrador oral para a pessoa, ele pode descambar de diversas formas, ele pode descambar através da leitura, ele pode descambar através do cinema. Você pode descobrir através dessa história que é narrada, você pode viajar para o país da história ou ir no presente, você escuta uma história linda sobre Oxum e você acabar indo para uma festa sobre Oxum. Eu acho que a contação de história mais do que incentiva leitura, é um convite para você descobrir mundos diferentes do seu, além da experiência de você se colocar no local do outro, um exercício de troca de lugar com o e de escuta. Em um tempo onde a gente tem tantas discussões, em que tá sendo tão difícil debater ideias, você se permite escutar o outro, se deixar embalar pela voz do outro, eu acho que são exercícios de generosidade e é uma coisa que a gente precisa aprender para a gente evoluir.

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